Vida e História

Vida e História

Jorge Amaro

Ator, artista, diretor de teatro e a máxima excelência: o palhaço (1954-2019)

Jorge Amaro foi um artista mogiano versátil, intenso, incomum, alado.  Atuou como ator, cenógrafo, diretor de teatro, músico, artista plástico e palhaço. Ele viveu 65 anos.  Foi morador, desde o nascimento, em uma vila de imigrantes portugueses na Rua Senador Feijó, que possui apenas uma quadra, ao lado da linha ferroviária, no bairro Shangai, em Mogi das Cruzes. Nascido em 1954, ano de profunda agitação política e social no Brasil, ele morreu em 9 de agosto de 2019, após complicações de saúde decorrentes de um enfisema pulmonar (que o levou a deixar o cigarro no ano 2000, logo depois de uma grande cirurgia no pulmão) e de um câncer no intestino, descoberto tardiamente. 

Para artistas e agentes de cultura, era um sujeito livre, apartado dos padrões do circuito da arte e da produção artística. Não coube em caixa fechada em vida. Nem o será agora quando o Museu Digital Jorge Amaro propõe a preservação de suas memórias, legado e história. Produziu um acervo representante da cultura mogiana gestada entre períodos do autoritarismo, censura e instabilidades sociopolíticas e econômicas – Estado Novo, que começou com um golpe de Estado (1937-1945) e passou pela República Populista (19465-1964), Ditatura Militar (1964-1985) até a Redemocratização (1974-1988). Esse retrato do País permite situar o artista e representar tanto Amaro quanto outros mogianos ligados à cultura e à geração dele, marcados (em diferentes estaturas) pelo preconceito, a desvalorização e/ou o não reconhecimento da arte, além da insegurança financeira determinada por uma decisão pessoal: perseguirem a vocação artística em detrimento de outro meio de subsistência ou carreira profissional. Amaro foi influenciado pela contracultura, os movimentos Beats, Hippie e o Tropicalismo.

De modo geral, como uma minoria, não conciliou o exercício artístico com outra atividade, embora tenha recorrido a alternativas pontuais em determinados períodos da fase adulta. Foi retocador de fotografia, empreendedor (esteve na fundação e manutenção de alguns bares mogianos e em Salesópolis e de uma boutique, que funcionou na rua José Bonifácio, próximo ao prédio do atual Museu Guiomar Pinheiro Franco), e desenhista com carteira assinada na Techint, durante uma obra realizada pela empresa de engenharia e construção em Mogi das Cruzes. Foi um artista que atuou na informalidade do Brasil sem regime previdenciário específico para os produtores e fazedores de cultura. Portanto, foi muito pouco amparado por políticas públicas voltadas para a mão de obra ligada à cultura, arte e artesania, e não chegou a receber recurso previdenciário na velhice. 

Pouco antes de morrer, familiares iniciaram o processo para obtenção do Benefício de Prestação Continuada, o BPC, que lhe garantiria um salário-mínimo por mês. Não houve tempo para isso. Logo ele descobriu o câncer intestinal, foi internado, operado e não resistiu ao agravamento da doença. 

Jorge Amaro obtinha recursos da venda de seus quadros (a preços insignificantes ou em troca de bebida) e da tutela familiar para a manutenção dos gastos fixos (alimentação, água e luz). Aluguel, não pagou: residiu em moradia herdada dos avós e pais, uma das casas da vila portuguesa conhecida por ser ponto de encontro para churrascos e produção de cenários para espetáculos de companhias teatrais da cidade. 

Acervo virtual

O acervo de Jorge Amaro não está catalogado. Segue disperso entre espaços públicos e pessoais.  Reunir e dar visibilidade a esse acervo é a razão de ser do Museu Virtual Jorge Amaro, projeto realizado por meio do PROFAC (Programa de Fomento à Arte e Cultura) de Mogi das Cruzes.

As obras do autor estão esparramadas em bares e territórios populares, acervos particulares de artistas e de compradores desconhecidos que adquiriram telas e os muitos desenhos feitos a lápis, giz e caneta de diferentes pigmentos em papéis de desenho tipo Canson, a valor irrisório. No eixo oficial, a Pinacoteca de Mogi das Cruzes possui três peças do mogiano. No Bar Baratotal, é possível conhecer três telas, além dos últimos desenhos feitos em sulfite com caneta preta, todos assinados pelo frequentador assíduo do espaço que completa 30 anos em outubro de 2026.

Era ininterrupto o ato de fazer arte, atuar e estudar artes. Para Jorge Amaro, refletem os entrevistados para este perfil, não havia faixa divisória entre a performance, dar vida e voz a um personagem, difundir um pensamento criativo, e a existência cotidiana. “Parecia que ele vivia performando, atuando”, sintetiza o músico e empresário mineiro Celso Andrade, que conviveu com Amaro desde o final da década de 1980, um período que trouxe muitos músicos e jovens universitários de outras cidades a Mogi das Cruzes, compondo uma cena cultural e estudantil particularíssima. Naquele momento, as universidades de Mogi das Cruzes (UMC) e Braz Cubas chegaram a oferecer milhares de vagas no Ensino Superior, movimentando a sociedade, economia, o mercado de trabalho, de imóveis e o comércio. Pontualmente, a boêmia, a noite mogiana viu ampliar a oferta de festas e bares com música ao vivo na região do Centro Cívico (que abriga a UMC e tem a Braz Cubas na vizinhança).

Esse cenário efervescente, dentro de uma cidade que já registrava um crescimento populacional e socioeconômico consolidado pela industrialização e o comércio, afetou a cultura e os jovens mogianos, como Amaro, que entre os anos 1980 e 1990 acompanhava na percussão, a apresentação de músicos como Milton Bloise e Celso Andrade, nos palcos de bares como Será Isto?, Patuska,  Art Nouveau, Chandon e Pedágio.

Além do teatro e da música, Jorge Amaro passou a dedicar-se à pintura e ao desenho. Também era afeito à escrita que se transformava em mapas criativos, constantes no ritual de pesquisa e prospecção que antecedia a produção das telas propriamente ditas. No verso de quadros reunidos na galeria do Museu Virtual Amaro estão descritas ideias e palavras que o guiavam na composição artística, bem como a presença de materiais que ele usaria nas obras, como pedaços de pano e papel. 

No entanto, apesar desse processo de estudo e registro sobre o modo de criação, praticamente nada sobrou desses diagramas. 

Amaro morava só, em uma construção que fundia o uso e a função de casa e ateliê, onde, até meados dos anos 2000, a presença de amigos era rotineira. Nos últimos anos de vida, neste espaço, a debilidade do corpo era evidenciada pela desordem na rotina – ele bebia mais, comia menos, e acumulava coisas, tintas, papéis e materiais diversos. Esse quadro, aliado à falta de limpeza, levou amigos e familiares a fazer uma grande faxina, alguns meses antes de sua última internação na Santa Casa de Misericórdia de Mogi das Cruzes, de onde ele não mais retornaria para a vila dos portugueses. Cadernos, jornais, desenhos e escritos em papel, e outros itens em adiantado estado de deterioração atraíam insetos e roedores. Uma parte desse material, no entanto, pôde ser preservada e está sob a tutela do filho dele, Caio Amaro da Costa e o sobrinho Luciano Amaro.

Obra, vida e a família portuguesa

Obra, vida e a origem: Jorge Amaro nasceu em uma das famílias portuguesas que chegaram a Mogi das Cruzes no século passado e viveu seus 65 anos no bairro do Shangai

O ponto de partida para a apresentação deste relato sobre o artista são registros e memórias de quem conviveu com Jorge Amaro. Ele residiu a maior parte dos 65 anos em Mogi das Cruzes. Houve, porém, uma estada em São Paulo, durante o breve período de formação como ator na escola de teatro da italiana Lydia Nicia [1926-2015], quando se alojou em repúblicas por onde passaram atores como Marco Nanini, Antônio Fagundes  e Zé Celso Martinez (Teatro Oficina) [1937-2023], segundo o próprio contava.

Nascido em 1954, o filho primogênito de Judite Amaro da Silva, teve a primeira grande perda aos 14 anos quando o pai, João Jesuíno da Silva, mecânico de aviões que trabalhava no Aeroporto de Guarulhos, morreu, deixando órfãos, ele e os irmãos, Janete e João (ambos também falecidos). Até esse acontecimento, Amaro levou uma infância e a pré-adolescência típicas da geração mogiana que viveu na Mogi das Cruzes com 30 mil habitantes e, como efeito da atração de empresas e do fortalecimento do comércio e da agricultura, chegou aos 64 mil (na década de 1960). 

Ele estudou no Ginásio do Estado, que posteriormente passou a se chamar Escola Estadual Dr. Washington Luís. Participava de festas religiosas e populares, acompanhava a vida cotidiana com as idas ao cinema e ao circo, quando lona e picadeiro modificavam a paisagem das proximidades da Chácara da Yayá, atualmente o Centro Cívico. O garoto se destacava em atividades esportivas como as peladas entre grupos de moradores dos primeiros bairros mogianos, o futebol de salão, vôlei e o judô – este último, uma ordem dada pelo pai. Também participava das guerras e pancadarias comuns entre garotos que implicavam com “os de fora”, que defendiam os territórios do Shangai, Mogilar, Socorro e São João, segundo lembra o ator e diretor de teatro, Adamilton Andreucci, também morador da rua Senador Feijó.

O pai de Jorge e a família são descritos como rígidos, conservadores. O judô na infância havia sido uma imposição familiar. Porém, após a morte do pai, “o Jorge se viu livre, pôde seguir o que ele gostava, o teatro, a arte”, como observa seu sobrinho, o músico Luciano Amaro, uma das fontes mais próximas do artista ouvida nesta apresentação. Ambos nasceram na mesma vila, sendo os Amaro uma família de origem portuguesa, do lugarejo chamado Alverca da Beira, na região central daquele país, pertencente atualmente ao município de Pinhel. Neste mesmo povoado nasceram outros imigrantes portugueses que se estabeleceram em Mogi das Cruzes e são aparentados e conhecidos por atuarem no nicho de restaurantes, pizzarias e padarias tradicionais.

O Teatro

A vocação para as artes cênicas foi consolidada na escola estadual Washigton Luís, ponto de fundação do Teatro Experimental Mogiano (TEM), em 1965, criado por estudantes do Grêmio Estudantil Ubaldo Pereira. Mais recentemente ali se estabeleceu o Teatro Ousadia, núcleo surgido em 2005 em um trabalho extracurricular iniciado sob a coordenação dos professores Ericka Capella e Gilberto Pereira Paula com alunos que encenaram Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto [1920-1999], escrita em 1955. O Ousadia, aliás, foi quem levou Jorge Amaro novamente para dentro da tradicional escola pública de Ensino Médio, já depois dos 40 anos: convidado pelos dois professores, ministrou aulas de teatro, aos sábados, para jovens estudantes ajudando na preparação de peças apresentadas no Theatro Vasques. Uma delas era a peça infantil A Pequena Sereia, adaptada por Jorge Amaro, Ericka e Gilberto a partir do clássico do dinamarquês Hans Christian Anderson, popularizado e repaginado pelo filme lançado pela Walt Disney, em 1989. Na versão dirigida e com cenografia de Amaro em 2009, lendas brasileiras surgem e o príncipe, por exemplo, é um pescador. 

Com o Ousadia, o ator e diretor de teatro desenvolveu outros projetos. Fez a leitura dramática A Beleza da Música Brasileira, em parceria com Gilberto Pereira Paula, em 2008. Na costura de grandes clássicos da MPB, os atores interpretavam um casal em cena e descreviam o amor, a paixão e a ilusão no espetáculo apresentado na sala Teatro de Bolso Clarice Jorge [1937-2025], no Casarão do Carmo. 

A parceria rendeu outros momentos no teatro mogiano. Os 50 anos de carreira do artista mogiano foram marcados pela obra A Flor da Pele, de Consuelo de Castro [1946-2016], escrita em 1969. Jorge Amaro foi dirigido por Ericka e Gilberto. A peça feita durante a Ditadura Militar no Brasil segue surpreendentemente atual ao tocar em temas universais e agudos a partir de um casal formado por um professor, Marcelo, e a aluna, Verônica, que entabulam diálogos e situações em torno de uma relação marcada por um relacionamento desigual, o ciúme doentio, o medo da perda.

Foi para esse espetáculo que o artista criou a icônica : um manequim transformado na misteriosa e sensual mulher, com apenas uma parte do expressivo rosto, pontos do corpo nu destacados por pinturas em tons fortes de verde e amarelo, salpicados por pedrinhas brilhantes. Jorgete seguiu com o grupo, e participou de incontáveis cenas durante a formação de atores e apresentações. A peça inspirou a logomarca do território, para quem Jorge Amaro é considerado uma referência.

No Ousadia, a sala Jorge Amarob é uma homenagem ao professor, ator e incentivador do núcleo teatral. A companhia, aliás, foi a primeira a realizar homenagem póstuma a Jorge Amarob, acrescentando no sobrenome dele o b, um nome adotado após estudos feitos por ele sobre a numerologia. Poucos quadros, no entanto, trazem a adição da segunda letra do alfabeto. 

O início no teatro com Nydia Licia

Em meados da década de 1970, Jorge Amaro conheceu e se casou com a artista plástica Elisete Nunes da Costa, com quem teve um filho: o músico, escritor e produtor cultural Caio Amaro da Costa. O casamento dos dois, no entanto, pouco durou. 

Foi no período do relacionamento com Elisete que ambos conheceram a companhia de teatro da atriz e diretora italiana Nydia Licia [1926-2015], que foi casada com o ator Sérgio Cardoso [1925-1972]. A experiência com o curso de teatro em São Paulo rendeu a Jorge Amaro a carteira profissional de ator, destaca o diretor de teatro e ator Adamilton Andreucci, ex-coordenador de Cultura de Mogi das Cruzes e o último diretor a convidá-lo para uma performance, realizada no final de agosto de 2017. Diversos artistas participaram da intervenção intitulada Poesias Eróticas ou o Tesão à Flor da Pele, no Casarão da Mariquinha, no Largo Bom Jesus. Adamilton cita o ator como um dos primeiros, em Mogi das Cruzes, a obter tal certificação nos anos 1970.

A chegada dele à escola da italiana Nydia Licia foi recontada inúmeras vezes por Amaro. Um grupo de estudantes de Mogi das Cruzes resolveu disputar uma vaga na companhia reconhecida e o único contemplado, ele, fez parte do elenco de uma das peças infantis do núcleo teatral. Luciano Amaro lembra-se de ir em uma ou duas sessões ao Teatro Sérgio Cardoso para ver o tio no palco. 

Nydia Licia e Sérgio Cardoso foram expoentes do teatro paulista e nacional;  ela teve uma carreira reconhecida no teatro infantil e na produção para televisão brasileira.

Elisete namorava o ator, à época, e trabalhou nos bastidores do espetáculo infantil — atuou na bilheteria, ao lado de Nydia Licia.  Ela e amigos fizeram o mesmo teste, mas a vaga ficou com Jorge. “O Jorge fazia bem, muito bem, tudo o que se propunha fazer. No teatro, quando era para ser diretor, ele era o melhor diretor porque estudava, estudava muito. Se era para ser ator, ele seria o melhor ator”, afirma Elisete. 

O senão era a descontinuidade, a dificuldade dele em permanecer no ordinário, no padrão. No caso do grupo de Nydia Licia, ele abandonou o espetáculo em meio à temporada. Os atores da companhia vieram até a casa dele, no Shangai, em Mogi, para saberem o que tinha acontecido, já que o ator não apareceu para as apresentações. Inicialmente, ele teria dado a desculpa de que havia sofrido um acidente de carro, o que não era verdade. “Era solto, não se prendia”, recorda-se Elisete Costa.  Nesta ocasião, tornou-se célebre a provocação de amigos, dizendo que ele havia trocado as sessões do teatro infantil por um final de semana em Trindade, ao lado de Paraty, no Rio, como destacou o professor Mário Bloise, o Marinho

Ele teve um segundo casamento com a atriz, palhaça e professora universitária Ana Elvira Wuo, na década de 1980. Procurada pelas redes sociais, ela não retornou aos pedidos de uma entrevista.

Para Adamilton Andreucci, como artista, Jorge foi “múltiplo, dono de um pensamento libertário, avesso a rotinas mecânicas e monótonas. Era irrequieto, instigante, senhor do seu tempo, na prática e na teoria, quase um anarquista. Todas as vezes que penso nele, vejo aquele rapaz magrelo, pau-de-virar-tripa”.

Nos anos 1980, Amaro dirigiu o monólogo Transparências, de Nelson Albissú [1948-2016], espetáculo reconhecido pelo público e crítica na era fundante e pródiga para o teatro amador paulista. Com o ator Paulo Carlos de Oliveira, a montagem percorreu cidades do Alto Tietê, a Capital e outras praças paulistas, conquistando, inclusive, espaço na agenda do Teatro Sesc em São Paulo. 

Destas experiências surgiram participações em outros espetáculos, ensaios e formação de atores na cidade. No Bar Baratotal, em 1989, esteve à frente de um curso de teatro, ao lado de Ernesto Stock, fotógrafo e escritor, algo que se repetiria em outros itinerários e ao lado de companhias mogianas. Sempre que convidado, Amaro compunha e participava da cenografia e montagem de espetáculos, e na garimpagem certeira e atenta de objetos e roupas usadas em cena.

Dirigiu os espetáculos Novas Aventuras de Pietro e Antonella, que teve em cena sua amiga Denise Andere, ao lado do elenco formado por Nahome, Thiago Cardoso e Victor Andrade, e fez o mesmo em Lelé, Lili e Cia, com Luiz Fernando Andrade Neto, Nahome Andere, Denise (que interpretava a vovó, no interior de uma boneca) e Tânia Meireles.

Era amigo que atendia aos amigos. O professor Celso Manocchio o levou para uma apresentação em uma escola do Ensino Médio, em Suzano. Jorge Amaro atendeu ao pedido do companheiro de bar e da cena cultural por amizade e ficou incomodado quando os estudantes começaram a pedir autógrafos, pensando que ele era o outro Jorge, o autor Jorge Amado [1912-2001]. Logo, ele comunicou o fato ao amigo, que comprovou um traço da personalidade de Amaro: a transparência, o pudor, a mais valia que empregava ao que era certo, algo encontrado em outros depoimentos. A amiga, atriz e arte educadora Denise Andere acrescenta que Jorge pediu R$ 20 emprestados. Passaram-se meses, anos, e lá vinha ele, sempre que a via, dizendo que ainda ia quitar a dívida, que nunca foi cobrada. “De tanto ele falar, um dia, eu disse, faz um retrato meu e está tudo certo. Ele fez e não voltou com a mesma história”.

Vander Alves, fundador e responsável pelo projeto cultural Cumbuca da Judite, amigo do artista, foi premiado com o trabalho de Jorge em um concurso no período em que trabalhava como promotor de vendas da Nestlé, em super e hipermercados. Para o concurso nacional, propôs ao artista plástico a criação de pipas gigantes, em papel celofane, que traziam a centenária marca do ingrediente culinário: a “milkmaid”, imagem da moça suíça segurando um balde de leite, criada em 1890 pela empresa. A criação, feita no ateliê do artista, no Shangai, rendeu o prêmio nacional a Vander, que o considerava único na expressividade e pulsão para compor: “se não tinha pincel, criava com as mãos, era visceral, intenso na arte dele”. 

O bobo da corte, o arquétipo escolhido

  “O clown encarna os traços da criatura fantástica, que exprime o lado irracional do homem, a parte do instinto, o rebelde a contestar a ordem superior que há em cada um de nós. É uma caricatura do homem como animal e criança, como enganado e enganador. É um espelho em que o homem se reflete de maneira grotesca, deformada, e vê a sua imagem torpe. É a sombra. O clown sempre existirá. Pois está fora de cogitação indagar se a sombra morreu, se a sombra morre. Para que ela morra, o sol tem de estar a pique sobre a cabeça. A sombra desaparece e o homem, inteiramente iluminado, perde seus lados caricaturescos, grotescos, disformes.”  Federico Fellini (1983)

O homem que tocava um piano imaginário na cabeça de uma pessoa em meio a uma conversa de bar, ou mesmo em casa, quando dava a impressão de estar compondo uma obra fictícia, irreal, dedilhando uma parede. Não se prendia a padrão de normalidade, do senso comum. Jorge Amaro era artista, ator em estado performático constante, e palhaço, um arquétipo capaz de disparar mil dardos sobre a essência humana – luz e sombra, caos e inocência, tristeza e alegria, comédia e humor atados à tragédia. Maluco e lúcido no mesmo ato. Nascido nos anos 1950, ele e os artistas daqueles tempos chegam à juventude influenciados pela contracultura e os movimentos Hippie e o Tropicalismo. Ambos os fenômenos foram sedimentados pela geração anterior (1945 até o início de 1960), os chamados beatniks que contestaram o materialismo, o conservadorismo, as guerras e a violência, e o ativismo pelos direitos civis da população negra nos Estados Unidos. Leitor e estudioso contumaz, focado em temas gerais, sociais, políticos e filosóficos, além do teatro e das artes plásticas, o artista colocava intenção em suas interações sociais e criativas, identificadas por fases (palhaços, lunáticos, bailarinas e outros). Por isso, o dedilhar a cabeça de uma pessoa ou o cutucar os ombros de uma outra tanto poderia demonstrar afeto, como, em certos momentos, dar um toque sobre a impropriedade ou desfaçatez de um comentário ou opinião fora de contexto.

Sem o conhecer, quem via a figura taciturna, magra, quase sempre de roupas escuras (o sobretudo era um item constante do seu vestuário), dançando ou gesticulando sozinho, poderia interpretar erroneamente as representações silenciosas, excêntricas e melancólicas. Há de se considerar, porém, dois fatores pessoais – o histórico de familiares diagnosticados com a esquizofrenia e o alcoolismo do artista, um quadro que hidrata na sociedade, o preconceito, o desrespeito e o estigma comum sobre a fraqueza moral e pessoal do indivíduo ante a doença crônica. Dito isso, é bom frisar que não houve um diagnóstico sobre alguma síndrome ou transtorno mental sobre Jorge Amaro. O alcoolismo, sim, era um fato.

O artista era uma potência criativa, segundo compartilham pessoas do convívio dele, como Ernesto Stock, que chegou a gravar um documentário sobre Jorge no final dos anos 1990, um material que está para ser editado. Nas filmagens, Amaro falou sobre a arte, a influência do mercado e outros elementos na cultura. Stock acompanhou a trajetória do artista em diferentes momentos a partir desta década, quando se conheceram. 

Para Stock, Amaro não tinha qualquer característica de inadequação mental. Era um artista com uma superpotência criativa, o que poderia levar a uma incompreensão, por parte de alguns, mas não às pessoas que o conheciam a fundo. Durante o período de convivência, ele constatou que o amigo possuía trejeitos, como o toque na cabeça de algum conhecido, quando este fazia um comentário descabido, impróprio. Em outra mão, Stock afirma que o preconceito sobre Jorge, um artista que não seguia a cartela de interesses de época e muito menos de mercado ou do prefeito ou do gestor da Cultura da vez, era ainda mais latente por ele exercitar um ofício alheio a pressões estéticas, artísticas e sociais. Algo desenlaçado e à margem do poderia ser interessante para o poder público, para o comprador e apreciador de arte, e até mesmo para o meio artístico, elabora Stock.

Amaro conheceu as consequências ao seguir por esse caminho alado, fora do status quo. Em uma das últimas conversas com o filho único, na cama do hospital, ciente da gravidade do que ocorria, e, talvez, preocupado com o próprio futuro, a vida após a alta médica, o recomeço fora do hospital, ele pediu algo inesperado a Caio Amaro: queria telas e tintas para pintar cavalos. Mas, àquela altura, Caio questionou o porquê? E ele respondeu, já debilitado: “Vou pintar cavalos, algo que as pessoas gostam de ter em casa, algo fácil de agradar”. Não houve tempo para a inflexão na carreira do autor de quadros reconhecidos pela complexidade de temas e formas concretas e disformes escolhidas por para oferecer o olhar torto, choroso, e ao mesmo tempo terno e amável, de um palhaço e outras composições abstratas. 

O palhaço

Personagem recorrente em fases da vida e de criação de Jorge Amaro, o palhaço registra a complexidade deste ator mogiano. O clown, o palhaço, o comediante, o bobo da corte que dizia verdades ao rei (e ao público) é um arquétipo complexo por representar muitos elementos para falar sobre a natureza humana. O processo criativo deste personagem, nada simplista, integra dualidades entre a luz e sombra, riso e choro, humor e tragédia, tudo isso ligado por um fio condutor do inconsciente: a caricatura, o irreal, o disforme, o fantasmagórico, ao consciente: o sujeito que falha, manca, erra, tropeça, frágil, triste, sozinho, mal interpretado. Tudo isso, usando a menor máscara do mundo, um pequeno e vermelho nariz. Esse foi um presente personagem performático escolhido por Jorge Amaro nas artes plásticas e cênicas.

Relatos sobre o Jorge

Jorge Amado, não! Jorge AMARO

Quase dez anos mais novo do que Jorge Amaro, o professor Celso Manocchio, nascido em 1962, conheceu o ator e diretor de teatro por influência do irmão dele, João Amaro. Ambos estudavam na escola estadual Dr. Washington Luís, base da efervescência estudantil e cultural mogiana, sobretudo em meados do século passado, quando o número de colégios que ofereciam o segundo grau (Ensino Médio) era limitado. A escola foi berço de notáveis grupos de teatro, música e esporte da cidade. João Amaro contava que tinha um irmão que estudava e fazia teatro em São Paulo. 

Anos mais tarde, Manocchio conviveu com o artista que havia desistido de participar de uma peça do teleteatro da TV Cultura para seguir com amigos, para alguma praia. 

Os encontros entre os dois se davam, principalmente, no Baratotal, bar onde Jorge Amaro era presença fácil. “Quando o conheci, ele já estava meio ‘cambeta’, já o chamávamos de Pica-Pau por um traço característico de usar as mãos para falar com os seus interlocutores, como se estivesse ‘bicando’, cutucando as pessoas. O Jorge sempre viveu no mundo dele, estava meio fora da realidade, mas possuía algo que chamava atenção. Era extremamente solícito”.  

Amaro atendeu de pronto ao convite do amigo professor para participar de uma mostra sobre a obra do fotógrafo documental e fotojornalista mineiro Sebastião Salgado [1944-2025], no antigo Colégio Bandeirantes (que se transformaria, mais tarde, na Unisuz), em Suzano. A exposição apresentava a obra e a genialidade do artista, com vários cenários reproduzindo partes do acervo fotográfico do ícone mundial da fotografia e ativista reconhecido pela defesa do meio ambiente e povos marginalizados e excluídos da sociedade contemporânea. 

O convite era para aproximar os estudantes de um artista plástico que, neste caso, também navegou pela arte como um instrumento de narração sobre a humanidade e suas contradições por meio das cores e traços. 

Lá foi Jorge Amaro para Suzano, com suas tintas e mãos – ele compunha seus quadros com elas.  

Certo momento, estudantes começaram a pedir autógrafos ao artista. “Sem graça, o Jorge veio me dizer que os alunos estavam o confundindo com Jorge Amado, e perguntou o que deveria fazer: eu, naquele momento, disse: faça a alegria dos alunos” — relata o professor. 

Muitos encontros foram acompanhados pelo professor nas madrugadas mogianas. “O Jorge bebia muito, mas era um sujeito que ficava no cantinho dele e o que a gente fazia era não dar muita trela, quando ele estava muito chapado porque não havia condições de seguir com alguma conversa. Sem o efeito da bebida, era um sujeito para se conversar sobre música, política, a vida. Uma vez presenciei algo que acabou sendo engraçado. Estávamos no banheiro e ele fumava um cigarro. E ele mesmo molhou o cigarro, ao fazer xixi, sem perceber isso e saiu tranquilamente do banheiro fumando o cigarro apagado”.

Fragmentos - as pegadas artísticas de Jorge Amaro

Ator e diretor de teatro, artista plástico, desenhista e restaurador de fotografias, o mogiano Jorge Amaro atuou em espetáculos adulto e infantil, exposições e mostras de artes, atos e intervenções artísticas, culturais e políticas em Mogi das Cruzes e cidades, como a capital, São Paulo, e Suzano. A trajetória do artista foi construída para o Museu Virtual Jorge Amaro, um espaço virtual criado para salvaguardar a memória e a obra deste mogiano. O artista, em si, pouco guardou de sua produção. Um limitado material encontra quem procura por registros do acervo de vida e pessoal na internet ou em redes sociais (a consulta, aliás, costuma remeter a pesquisa sobre o mogiano para outro Jorge, o escritor, jornalista e político baiano Jorge Amado que viveu 100 anos [1901-2011]). A dificuldade para catalogar as pegadas de Jorge na cena cultural local e do Alto Tietê evidencia a faculdade individual e coletiva de reter, preservar e conservar imagens, documentos, conhecimentos, vivências e experiências do passado como instrumento para se conhecer e inventariar sujeitos que atravessam a contemporaneidade não apenas no campo de atuação de Amaro. Autorias menos frequentes no eixo cultural oficial alojam-se praticamente na memória dos que conviveram com estes entre o século XX e XXI. Remar contra o esquecimento e o apagamento, contribuir para o registro histórico e preservar um acervo espalhado entre relicários pessoais da família e de amigos e um mobiliário público enxuto (neste rol estão obras encontradas na Pinacoteca de Mogi das Cruzes e no Bar Baratotal) é o espírito e objetivo do Museu Virtual Jorge Amaro.

Por meio de recordações e o acréscimo dos breves (mas, existentes) registros extraídos de fontes oficiais, como o Arquivo Histórico de Mogi das Cruzes, mantido pela Prefeitura Municipal, o Museu Virtual Jorge Amaro registra alguns dos eventos que tiveram a participação do artista e homenagens feitas a ele, uma delas, a poucos meses antes de sua morte, uma exposição organizada por amigos e familiares no Bar Baratotal, misto de bar e equipamento cultural mogiano.

A luta pelo ressurgimento do teatro que virou cadeia e casa legislativa

Na década de 1970, Jorge Amaro está entre artistas e estudantes mogianos que se reuniram, em frente ao prédio do Theatro Vasques (que seria rebatizado como Paschoal Carlos Magno [1980-2002], e depois volta a adotar o nome original) para reivindicar a abertura do espaço que permaneceu fechado de 1948 a 1980. Antes da reconquista do espaço cênico, o prédio construído para ser um teatro, em 1901, teve sua função original, a de fazer teatro, moldada por decisões políticas dos gestores municipais na travessia do tempo. Abrigou a Câmara Municipal e a cadeia, até retomar suas origens, após uma reforma em resposta à pressão exercida pela juventude mogiana e a classe artística.

A mudança no uso deste patrimônio cultural começou a ser costurada com a realização do ato organizado por artistas locais que promoveram uma vigília, em frente ao teatro sem uso e abandonado, A intervenção cultural intitulada Coletiva de Artes e Artistas ocorreu de 7 a 9 de setembro de 1973 (Fonte: Arquivo Histórico “Historiador Isaac Grinberg” de Mogi das Cruzes).

Nesta ocupação, sem ajuda da Prefeitura,  depois de retirarem móveis e equipamentos quebrados, os artistas “tomaram” o espaço público, forçando debate em jornais daquela época e pavimentando a decisão política do prefeito Waldemar Costa Filho (eleito para governar de 1977 a 1983) de reabrir o Theatro Vasques, com ajuda de recursos públicos liberados pelo governador Paulo Egydio. No entanto, houve um preço: a mudança do nome original do prédio que, nesta altura, já tinha seus 75 anos. Costa Filho atendeu ao pedido do governador e rebatizou o teatro como “Paschoal Carlos Magno”, um nome imposto pelo então secretário de Cultura do Governo do Estado, Max Feffer, que também modificou a nomenclatura de teatros em outras cidades paulistas. 

A denominação prevaleceu por duas décadas, até o prefeito Junji Abe, em 2002, pressionado pela classe artística, determinar o retorno do nome original, Vasques, uma homenagem ao ator, autor e humorista Francisco Corrêa Vasques [1839-1892].

Durante a ocupação com uma exposição de artes, que contou com a presença de artistas como Olga Nóbrega, Mauricio e Márcio Chaer, Norberto Duque, Oswaldo Pires, João Castilho, Marcos Namura, Joaquim Mello Freire (que assinava Ollem), Nolde Fernandinho, e outros, o ator Jorge Amaro ocupou o palco, como se fosse o prefeito de Mogi das Cruzes. Convidado, o prefeito Sebastião Cascardo (gestão de 1973-1977) não compareceu e nem encaminhou um representante da Prefeitura, como relembra o amigo e artista plástico, João Castilho. Nesta altura da trajetória de Amaro, o teatro era a principal expressão do artista.

A luta pelo ressurgimento do teatro que virou cadeia e casa legislativa

Na década de 1970, Jorge Amaro está entre artistas e estudantes mogianos que se reuniram, em frente ao prédio do Theatro Vasques (que seria rebatizado como Paschoal Carlos Magno [1980-2002], e depois volta a adotar o nome original) para reivindicar a abertura do espaço que permaneceu fechado de 1948 a 1980. Antes da reconquista do espaço cênico, o prédio construído para ser um teatro, em 1901, teve sua função original, a de fazer teatro, moldada por decisões políticas dos gestores municipais na travessia do tempo. Abrigou a Câmara Municipal e a cadeia, até retomar suas origens, após uma reforma em resposta à pressão exercida pela juventude mogiana e a classe artística.

A mudança no uso deste patrimônio cultural começou a ser costurada com a realização do ato organizado por artistas locais que promoveram uma vigília, em frente ao teatro sem uso e abandonado, A intervenção cultural intitulada Coletiva de Artes e Artistas ocorreu de 7 a 9 de setembro de 1973 (Fonte: Arquivo Histórico “Historiador Isaac Grinberg” de Mogi das Cruzes).

Nesta ocupação, sem ajuda da Prefeitura,  depois de retirarem móveis e equipamentos quebrados, os artistas “tomaram” o espaço público, forçando debate em jornais daquela época e pavimentando a decisão política do prefeito Waldemar Costa Filho (eleito para governar de 1977 a 1983) de reabrir o Theatro Vasques, com ajuda de recursos públicos liberados pelo governador Paulo Egydio. No entanto, houve um preço: a mudança do nome original do prédio que, nesta altura, já tinha seus 75 anos. Costa Filho atendeu ao pedido do governador e rebatizou o teatro como “Paschoal Carlos Magno”, um nome imposto pelo então secretário de Cultura do Governo do Estado, Max Feffer, que também modificou a nomenclatura de teatros em outras cidades paulistas. 

A denominação prevaleceu por duas décadas, até o prefeito Junji Abe, em 2002, pressionado pela classe artística, determinar o retorno do nome original, Vasques, uma homenagem ao ator, autor e humorista Francisco Corrêa Vasques [1839-1892].

Durante a ocupação com uma exposição de artes, que contou com a presença de artistas como Olga Nóbrega, Mauricio e Márcio Chaer, Norberto Duque, Oswaldo Pires, João Castilho, Marcos Namura, Joaquim Mello Freire (que assinava Ollem), Nolde Fernandinho, e outros, o ator Jorge Amaro ocupou o palco, como se fosse o prefeito de Mogi das Cruzes. Convidado, o prefeito Sebastião Cascardo (gestão de 1973-1977) não compareceu e nem encaminhou um representante da Prefeitura, como relembra o amigo e artista plástico, João Castilho. Nesta altura da trajetória de Amaro, o teatro era a principal expressão do artista.

Perfume, cheiro de dança

De 28 de novembro a 8 de dezembro de 2011, Jorge Amaro organizou a exposição “Perfume, Cheiro de Dança” no Centro de Cidadania e Arte – Ciarte, instalado no antigo prédio do Cine Odeon, em frente à Praça Oswaldo Cruz. A mostra reuniu a série de obras inspiradas na dança, que teve como fonte de criação a bailarina mogiana Fernanda Moretti, homenageada por Amaro.

A mostra focada nos movimentos da dança e na bailarina teve como fio condutor a mescla de técnicas usadas por Amaro, com o recurso da tinta acrílica, guache sobre couchê e grafite sobre papel tipo Canson.

Jorge Amaro – 65 anos de história

A última exposição Jorge Amaro – 65 anos de história tornou-se significativa homenagem em vida feita por amigos e produtores culturais à trajetória do artista. Telas reunidas estamparam as paredes de uma espécie de segunda casa do artista, o Bar Baratotal, onde ele foi cliente, expositor, músico e até mesmo professor de teatro (nos anos 1990) no percurso do tradicional polo musical e cultural inaugurado em 1996, na rua Olegário Paiva, e transferido para a rua José Bonifácio, 431.

Obras do autor foram catalogadas e cedidas aos organizadores, entre eles, escritora, professora e produtora cultural Carla Pozo e o filho do homenageado, o artista e produtor cultural, Caio Amaro, em uma celebração que marcaria o último encontro entre Jorge Amaro, seus amigos e público. Ele faleceria alguns meses depois da comemoração do aniversário e abertura da exposição.

Na apresentação do projeto encaminhada à mídia mogiana, destaca-se o relato sobre a representatividade do homenageado na cultura mogiana, com presença especial, nas artes plásticas e cênicas. 

A mostra Jorge Amaro – 65 Anos de História traz, de forma intimista e contemporânea, a trajetória do artista mogiano, que agrega grandes participações no teatro de Mogi das Cruzes e no Estado de São Paulo. Ele divide a sua arte entre o atuar e dirigir, e, ainda, agrega as artes plásticas, a sua outra paixão. No decorrer da sua vida artística, Jorge Amaro já realizou diversas exposições, e, nesta que está atualmente em cartaz no Baratotal, o público poderá apreciar as suas obras e conhecer um pouco mais da sua história na arte, contada por meio da música, poesia, teatro e grandes artistas mogianos”, trouxe o enunciado.

O evento contou ainda com a participação do chef Marcelo Costa, que preparou um cardápio da cozinha afrodescendente. Aliás, o projeto Encontro das Artes teria surgido, como divulgado pela imprensa local, em uma conversa entre Jorge, Carla e Marcelo no balcão de uma pizzaria mogiana. 

Instalação da Lua

A Exposição Jorge Amaro, Instalação da Lua, ocupou o Espaço Clarice Jorge – Coordenadora de Cultura, no Casarão do Carmo, com obras do artista nos dias 24 e 25 de setembro de 2005. O apoio foi da Poranduba, o coletivo cultural fundado em 2005, que tem como um dos articuladores Caio Amaro, filho da artista plástica Elisete Nunes e Jorge Amaro.

Um texto de apresentação de André Luiz da Cruz captura a personalidade plural de Jorge Amaro:

No artista reside o poeta e o músico, o pintor e o escultor, o médico e o louco, razão de sentimento, originalidade e influência.

No artista reside vários, um mundo.

Que a obra seja, portanto, contemplada em sua pluralidade, sintetizando assim a casa instante, um pouco de nós” 

Jorge Amaro, diretor de teatro, ator e cenógrafo

Jorge Amaro dirigiu espetáculos citados por amigos e atores mogianos de companhias mogianas. Também assinou a cenografia de outros espetáculos e companhias.

Leitura Dramática A Beleza da Música (2008)

Jorge Amaro e Gilberto Pereira Paulo, ator, professor de matemática e um dos pilares do Núcleo de Teatro Ousadia. Os dois atores falaram sobre o amor por meio da costura de clássicos da Música Popular Brasileira, na sala Teatro de Bolso Clarice Jorge, no Casarão do Carmo.

Mistérios do Fundo do Mar (2008)

Espetáculo infantil escrito por Jorge Amaro, Ericka Capella e Gilberto Pereira Paulo. A adaptação de A Pequena Sereia, com personagens e ambientação inspiradas em lendas brasileiras, foi encenada por estudantes do grupo de teatro WL Ousadia, no Theatro Vasques.

À Flor da Pele (2009)

A obra de Consuelo de Castro, escrita em 2009, marcou os 50 anos da carreira de Jorge Amaro, no Theatro Vasques. Jorge Amaro foi dirigido por Ericka Capella e Gilberto Pereira de Paula e contracenou com a atriz Aline Cândido.

Transparências

Monólogo de Nelson Albissú, com direção de Jorge Amaro. Com o ator Paulo Carlos Oliveira. O espetáculo discorre sobre a vida de um artista em meio às glórias e os dissabores do ofício. Um marco na trajetória do teatro mogiano, o espetáculo dirigido por Jorge Amaro recebeu prêmios durante circulação no estado de São Paulo, com destaque para a participação na Mostra Sesc de Teatro, no Teatro Anchieta, o que levou a produção a ser um dos marcadores da arte cênica mogiana na década de 1980.

Se chovesse, vocês estragavam todos (de Clóvis Levy e Tânia Pacheco/1975).

Com Jorge Amaro e Ana Elvira Wuo e direção de Jorge Amaro, o texto foi encenado no então Teatro Paschoal Carlos Magno (atualmente Theatro Vasques) no final dos anos 1980.

Com dois atores, a montagem provoca reflexões sobre a educação, a família e a opressão. Há três personagens inanimados, uma professora, uma mãe e uma avó. No cenário montado por Jorge Amaro, que dirigiu e foi ator no espetáculo, ele concebeu, ao fundo do palco, a imagem de um computador, vaticinando o que, àquela altura, nos anos 1980, cristalizava a mudança entre eras com a imagem de um computador, quando a máquina de escrever se aposentava para dar lugar à elétrica, ao tempo da automação, informação e digital. A lembrança do cenário foi compartilhada pelo ator e diretor de teatro, Adamilton Andreucci.

“Se chovesse, vocês estragavam todos” é um texto encenado pelas primeiras vezes durante a Ditadura Militar no Brasil (1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985), que recorre a uma metáfora (a educação) como instrumento de denúncia à opressão produzida em camadas mais profundas da sociedade e do indivíduo oprimido. As cenas se passam na escola e na casa da aluna. Na escola, a professora seduz pela beleza e utiliza-se do ensino como ferramenta de poder a serviço dos interesses do Estado. Em casa, a aluna tem como interlocutores familiares que ousaram duvidar do sistema e foram transformados em bonecos.

A peça ganhou o Prêmio Governador do Estado de SP em 1976, na categoria Melhor Autor, e foi encenada por diversas companhias no Brasil e no exterior. O texto aparece, em algumas publicações sobre o Teatro Amador do Estado de São Paulo, como tendo sido encenado em 1975, em Santos. 

Poesias Eróticas no Casarão da Mariquinha

Jorge Amaro foi um dos participantes da leitura dramática produzida pelo ator e diretor de teatro Adamilton Andreucci, com a Cia. TUMC de Teatro, no Casarão da Mariquinha, espaço cultural pertencente a João Camargo, filho da professora Maria de Souza Mello Camargo, a Dona Mariquinha, que funcionou no casarão histórico do Largo Bom Jesus entre 2014 a 2019, sob o comando do produtor cultural e músico José Luís da Silva, o Rabicho, ganhador do Prêmio Governador do Estado de 2017, na categoria Territórios Culturais.

Jorge Amaro participou da preparação e ensaios da intervenção Poesias Eróticas ou O Tesão à Flor da Pele, a convite de Andreucci, ao lado de outros artistas da cidade. Os poemas escolhidos eram de autores mogianos e nacionais.

A História Não Se Apaga: Uma homenagem a Jorge Amarob

Jorge Amaro foi o primeiro artista reverenciado pela Semanada do PTAC (Práticas e Técnicas para as Artes Cênicas), evento pedagógico que marcou a formação dos alunos do Instituto de Teatro Brasileiro (ITB) de Mogi das Cruzes, em 10 de setembro de 2025 no Theatro Vasques, um palco que ele frequentou como ator e cenógrafo. No convite, o respeito a uma decisão tomada por Amaro após um estudo da numerologia: acrescentar o “b” ao final do Amaro. Apesar da modificação, a inscrição Amarob ficou circunscrita a algumas assinaturas de obras.

No Theatro Vasques, a Mostra Multimídia “A História Não se Apaga: Uma Homenagem a Jorge Amarob” marcou a conclusão dos cursos de Produção Cultural, Técnicas de Palco, Luz e Som do ITB, em 2025, realizado nas dependências do Teatro Ousadia. A ideia do grupo fundado no interior da EE Dr. Washington Luís é seguir com homenagens a artistas que marcaram a cena cultural das cidades da região do Alto Tietê.

O Teatro Ousadia foi um dos espaços abertos a Jorge Amaro, onde ele criou, encenou e formou os atores do espetáculo infantil adaptado por ele, a partir da peça A Pequena Sereia. Jorge “abrasileirou” o conto com o recurso de lendas nacionais. O príncipe era um pescador. Os atores do infantil eram estudantes do Washington Luís, sendo que alguns deles, seguiram a carreira artística.

Para a turma formada pelo IBC, Jorge Amaro representa um “artista múltiplo que atuou como diretor teatral, escultor, pintor, performer e ativista cultural, cuja trajetória consolidou a identidade artística de Mogi das Cruzes e da região do Alto Tietê.

Com apresentação de Adamilton Andreucci (ator, diretor de teatro e ex-coordenador municipal de Cultura de Mogi das Cruzes de 2005 a 2008), a noite proporcionou o encontro entre artistas, produtores, atores, diretores e amigos de Jorge Amaro e, tão forte quanto isso, uma celebração ao passado e ao presente do teatro mogiano, com a conexão entre gerações do século passado e o XXI. 

A amiga, atriz, produtora cultural, psicóloga e pedagoga Denise Andere leu um manifesto à cultura como se fosse a prefeita de Mogi das Cruzes, Mara Bertaiolli, reeditando o que Jorge Amaro fez durante a luta pela reabertura do Teatro Vasques, nos anos 1970. 

Escrita pelo artista plástico João Castilho, a biografia listou feitos e características da personalidade e da obra de Amaro.

Uma cena do espetáculo À Flor da Pele, de Consuelo de Castro, escrita em 1969, foi apresentada em homenagem como referência à contribuição do ator e diretor Jorge Amaro à dramaturgia de Mogi das Cruzes e do Alto Tietê. Entre outros convidados, apresentaram-se os artistas Celso Andrade, Caio Amaro e Rui Ponciano.

Fonte:

Arquivo Histórico Historiador Isaac Grinberg de Mogi das Cruzes

Ousadia – Arte e Provocação em 20 anos (2025), de Ericka Capella

Site CircuArte Educação (https://circularte.com.br/a-flor-da-pele/)

Prefeitura de Mogi das Cruzes (Pinacoteca e publicações feitas pela Secretaria Municipal de Cultura)

Bienal de Arte do Alto Tietê

Agradecimentos

Entrevistas concedidas por Adamilton Andreucci, Arnaldo Del Corso Júnior (Magrão), Caio Amaro Costa, Celso Andrade, Elisete Nunes Costa, Denise Andere, Ernesto Stock, Francisco Del Corso (Chico Louco), João Castilho, Luciano Amaro, Marinho Bloise, Rui Longo, Vander Alves (Cumbuca da Judite), Ubirajara Nunes Pereira de Souza (do Arquivo Histórico de Mogi das Cruzes)

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